Uma história...

Postado por MST , sexta-feira, 2 de julho de 2010 15:28

É...


Então manolos, esse talvez seja o post mais direto que eu ja fiz desde que eu criei esse blog. O que eu quero dizer é que, nesse post, muito provavelmente eu fale exatamente o que está passando na minha cabeça, e nõa dixe coisas implícitas e coisas que necessitam que o leitor tenha uma informação extra para entender o que eu estou falando (e que eu esperava que mesmo aqueles que tinham a informação necessária não entendessem).

Como funciona? Vou contar uma história (mas eu ainda me utilizarei de pseudônimos).

Era uma vez um menino chamado Varg. Ele morava numa cidade legal, estudava numa escola legal, tinha uma família legal... era um cara normal, em resumo. Esse tal de Varg tinha alguns amigos, que se chamavam Laura, Maísa, Steve e Vinícius. Vinícius tinha sido seu primeiro amigo nessa escola, e eles possuíam gostos similares, por isso eram amigos. Steve era um cara forte e um pouco bruto, que não compartilhava exatamente dos mesmo gostos de Varg, mas que possuía uma maneira de pensar semelhante. Laura era uma menina que parecia um ursinho, que era bem meiga e todos amavam ela. Maísa era uma menina um pouco menos parecida com um ursinho, mas que ainda assim era muito legal. Todos eram amigos e felizes. Wee.

Então, chegaram as férias de verão. Varg gostava muito de seus amigos, e pela primeira vez na vida sentiu falta de estar em casa quando viajou de férias. Seus amigos também gostavam dele. Quando as aulas voltaram, Maísa e Laura correram e abraçaram Varg, porque estavam com saudades. Essa foi uma que ele sentiu que fazia diferença para alguém, e isso o fez imensamente feliz.

Então, as semanas de aula começaram a passar. As primeiras foram as melhores semanas do ano. Mas, após um tempo, Varg percebeu que Laura já não era mais aquele ursinho amado por todos, e tinha ficado um pouco mais grossa. Vinícius não se adaptou muito bem a essa mudança, e então decidiu ir para outro lugar, mas continuaram sendo bons amigos. Mas Varg sabia que as pessoas mudavam, e sabia que simplesmente precisaria aprender a conviver com essa nova Laura.

Foi então que algumas coisas começaram a acontecer. Coisas que deixaram Varg um pouco triste. Ele já estava diferente desde que sua namorada havia terminado com ele, mas de uma hora pra outra ele ficou pior.

Seus amigos perceberam isso. Laura ficou um pouco preocupada, e tentou ajudá-lo de muitas maneiras, dando conselhos, ouvindo seus problemas... Maísa também percebeu, mas... bem, até hoje Varg não sabe exatamente o que Maísa pensa dessa situação, ela era ótima em esconder o que estava pensando e sentindo.

Então, aconteceu uma outra coisa que deixou Varg ainda pior. Ele não sabe ao certo por que, nem se foi culpa dele, mas seus amigos começaram a perder o interesse nele. Ele percebeu que gostava muito de seus amigos, e ficou desesperado. Tentou de várias formas tentar ser um bom amigo novamente, mas seus esforços pareciam ter o efeito contrário.

Quando isso aconteceu, a infelicidade de Varg começou a ser transposta para sua família. Ele praticamente parou de falar em casa, e passava a maior parte do dia trancado em seu quarto tocando seu violão.

Mesmo que sua presença não fizesse mais o mesmo efeito, seus amigos ainda se preocupavam um pouco com ele, e ainda tentavam ajudá-lo. Mas Varg não ficou melhor. E com o tempo, seus amigos se acostumaram com sua infelicidade, e desistiram de tentar animá-lo.

A situação não era das melhores, mas ainda era suportável. Então, novamente, outro acontecimento mudou o rumo da situação. Por causa dessa coisa, o menino queria ficar um tempo sozinho, e se isolou por alguns dias. Mas, durante o tempo em que esteve isolado, percebeu que seus amigos pareciam mais felizes sem ele. Então, ele pensou para si "Cara, será que eu sou tão chato assim? Eu gosto deles, não quero atrapalha-los com a minha presença se eles estão felizes sem ela. Acho que se eles realmente gostarem de mim, eles vão me procurar." E fez isso. Ele se afastou um pouco deles, e fez novos amigos, ou melhor, se aproximou de antigas pessoas.

Varg tinha esperanças que estivesse errado em seu julgamento, e que seus amigos iriam procurá-lo. Mas isso não aconteceu. Foi quase uma bomba para o menino. Ele começou a pensar em morte, em matar pessoas, em fugir para outro lugar, mas se lembrou que não eram apenas seus amigos que importavam para ele. Ainda tinha uma família, e não queria que ficassem tristes por sua causa.

Bem, junto com seus novos amigos, Varg começou a fazer coisas erradas. Começou a ficar com raiva das coisas. Todos os dias ia para a escola e via seus amigos felizes sem ele, e sabia que estavam melhores assim. Chegava em casa, não falava nada, e apenas ignorava qualquer tipo de bronca vinda de seus pais, para não se estressar mais. E começou a ter raiva de si mesmo e de sua situação.

Mas ainda restava um resquício de esperança no coração do menino. ele percebeu que seus amigos não iriam procurá-lo, ele que teria de procurá-los. Então, juntou um pouco de coragem e tentou marcar uma saída para relembrar dos tempos em que seus amigos gostavam dele. E ele esperava quase morrendo por esse dia, era somente isso que o mantinha vivo e respirando todos os dias.

Então, pouco antes do dia em que ele esperava reconquistar seus amigos, ele perdeu a cabeça. Jogou todas as semanas que esperara ansiosamente por água abaixo. E perdeu aquela esperança que o mantinha vivo.

Logo, chegaram as férias, e logo elas se foram novamente. É o primeiro dia de aula, denovo. Mas desta vez, ninguém vem correndo ao encontro de Varg para abraçá-lo por que estava com saudades. Laura normalmente é a que chega mais cedo. Quando Maísa chega, elas se abraçam e falam muitas coisas sobre como suas férias foram boas. Chega então Vinícius, e as duas correm ao seu encontro. É a vez de Steve. Todos estão felizes. Varg apenas observa de longe, lamentando. O pequeno grupo de pessoas passa por ele, e cumprimentam-no com um "Oi" sem emoção. Apenas Steve destaca-se do grupo para apertar as mão de Varg, ao som de um "Varg, meu querido!" "Como foram suas férias?" e escutar um curto "Boas", com uma voz de sono. Em outros tempos Steve teria corrido e aplicado uma voadora com dois pés sobre Varg, mas Steve também mudou. Ele agora está mais calmo, e menos propenso a quebrar coisas. Então, após esse cumprimento curto, o grupo de pessoas se afasta de Varg.

Ele sabia que isso iria acontecer. Mas sempre tivera esperanças de que não fosse assim, de que novamente aquelas pessoas iriam correr ao seu encontro. Ele se sente tentado a ir lá, e esquecer de tudo que acontecera nos últimos 4 meses. Mas falta-lhe a coragem. "É claro que não seria assim, eles não gostam mais de você, seu idiota." Então, Varg dá as costas aos seus amigos de outrora, e vai de encontro aos seus novos amigos. Eles marcam para fazer coisas erradas à tarde, e Varg finge estar ansioso. Aprimorara-se na arte de fingir estar bem nos últimos tempos. A um estranho que conversasse com o menino, não notaria nada de anormal em seu humor. Talvez o achasse um pouco alegre demais, inclusive.

Mas uma análise mais atenta teria um resultado diferente. Talvez alguém notasse um tom amargurado no seu jeito de contar piadas, ou um pequeno suspiro de tristeza ao terminar de rir, ou até mesmo alguns momentos raros em que Varg desvia sua atenção do assunto e olha fixamente para algum ponto. Bem, nenhum de seus novos amigos notaria uma coisa dessas. Para eles, está tudo bem. Agora Varg já não tem nenhum amigo que possa confiar para contar seus problemas. Ele prefere guardar todas as inquietações para si. Ele se tornou um menino solitário, triste e anti-social.

Ao voltar para casa, Varg deseja que algum acidente mórbido tire sua vida e poupe a de sua mãe, ele acha que seria melhor e mais fácil assim.

Alguns dias antes, quando Varg chegava de viagem, podia se lembrar da cena no aeroporto. Ele saindo da plataforma de desembarque com uma camiseta de alguma banda de Thrash Metal, um casaco aberto na frente, seu cabelo um pouco maior e uma barba rala e comprida. Sua mãe recebendo-o com um abraço, e falando que havia sentido saudades, mas era possível perceber a tristeza em seu olhar, sua fala, seu modo de agir.

Então, ali estava ele. Um violão nas costas, uma bolsa de algum posto de gasolina pendendo de seu ombro, com algumas roupas, livros, CDs e todo tipo de coisa que você imagina encontrar no quarto de um menino de 15 anos, vestindo uma calça jeans e um All Star, com uma camisa de banda e seu inseparável casaco, talvez um boné em sua cabeça. Sim, ali estava ele, indo para onde seus pés o levassem. Esperara algumas semanas por um acidente de trânsito, mas chegara ao seu limite. Não aguentava ir para a escola todos os dias e ver seus amigos, sem ele.

Então, depara-se com um brilho no chão. Seu rosto se abre em um breve sorriso, o primeiro sorriso verdadeiro em 2 meses. Uma pequena pistola encontra-se encostada no meio fio. Ele abaixa-se e pega a pistola para examiná-la. O destino finalmente sorria para ele. 3 balas, bom. Daria para levar alguém com ele, afinal de contas.

Varg havia prometido a uma pessoa que não iria se matar, e havia tido uma longa conversa consigo mesmo sobre isso, e no fim decidira que suicídio era pior. Mas agora ele ja tinha outra coisa na cabeça. Seus amigos não precisavam dele, era ele que precisava de seus amigos. Sua família achava que precisava dele, mas Varg sabia que seriam mais felizes sem sua presença hedionda. Então, qual era seu motivo para estar vivo agora?

Uma outra promessa, um tanto infantil, que fizera para si mesmo é que não morreria sozinho. Daria um jeito de levar alguém com ele. Varg ja havia passado uma longa noite pensando nas alternativas que existem após a morte. Se houvesse algo como o Céu e Inferno, o Inferno seria sem dúvidas a sua nova casa. E como já estava no Inferno, por quê não abusar um pouquinho e levar mais algumas pessoas com ele? Se não houvesse nada, apenas a morte e uma imensa quantidade de vazio, apenas queria que sua morte ficasse na cabeça das pessoas por um bom tempo.

Mas então, quem seria sua vítima? Não conseguiria matar um conhecido, teria de ser algum transeunte sem sorte que cruzasse o seu caminho.

Então, ele viu. Dois assaltantes, em um espaço pequeno entre duas lojas, ameaçando uma mulher com uma faca. Outro sorriso abre-se em seu rosto. Poderia morrer fazendo uma boa ação.

Varg para arás dos assaltantes, coloca sua mochila no chão e retira um pequeno rádio a pilha de dentro dela. Os assaltantes, de costas para o menino, não percebem o gesto. Varg põe um CD, aperta o Play e posiciona o cano de sua pistola na nuca de um deles.

Dispara.

O outro meliante congela ao ver seu companheiro tombar ao seu lado. Ele sente um objeto frio em sua nuca, e estremece. A música o deixa ainda mais apavorado. Ja ouvira isso antes. Estava a ponto de lembrar-se, quando seus pensamentos são subitamente interrompidos por uma bala. Aliás, todas as outras ações de seu corpo são interrompidas pelo projétil.

Varg olha para a moça, e murmura algo parecido com um "Vá embora.". A mulher ainda demora-se fitando os olhos do menino por alguns segundos, antes de fugir alucinadamente.

"Bem, está feito agora." O jovem desencapa seu violão e toca um trecho de uma música que ele gosta. Black é o nome dela. Então, ele retira um papel e um lápis da bolsa, e escreve uma pequena nota. Pequena mesmo. Pode-se ler apenas:

And I don't belong here...

Não precisava dar expicações. Ja havia explicado o suficiente ao seu psicólogo, e ele não o ajudara. Agora não queria mais ajuda. Ele pega o violão uma última vez e toca um último acorde de Mi menor. Ele pensa uma última vez em uma pessoa, e uma lágrima solitária escorre pelo seu rosto. Então, com o revólver, dá um fim a todos os seus problemas.

FIM

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